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Ansiedade no trabalho: o que fazer quando você lidera

Por Fernanda Daniel, psicóloga (CRP 06/100698)02 de novembro de 20266 min de leitura

Ansiedade no trabalho: o que fazer quando você lidera

A ansiedade no trabalho é uma reação comum à pressão, à incerteza e à cobrança e, na medida certa, ajuda a se preparar. Ela pede atenção quando fica frequente ou intensa, aparece sem motivo claro ou começa a atrapalhar o sono e as decisões. Nesse caso, procure um profissional de saúde. Enquanto isso, quem lidera pode ajustar a rotina e cuidar de como a própria ansiedade chega ao time.

Você já ficou com uma mensagem do diretor aberta na tela, sem conseguir responder, porque qualquer resposta parecia arriscada? Ou passou a noite repassando a reunião de resultado do dia seguinte? Na mentoria, escuto relatos assim com frequência, quase sempre de quem guardou tudo para si, com medo de parecer frágil logo no lugar em que se espera calma.

Ansiedade é sempre um problema?

Não. Como psicóloga, gosto de lembrar aos líderes que a ansiedade é uma emoção humana e tem função, porque prepara você para algo que importa. Aquele frio na barriga antes de uma apresentação grande, que vai embora quando ela termina, faz parte do trabalho. O transtorno de ansiedade é outra coisa, e só um profissional de saúde pode avaliar se é o seu caso.

Expliquei por que um pouco de pressão ajuda e pressão demais atrapalha quando escrevi sobre a pressão no trabalho.

O que os números mostram

Segundo uma estimativa da Organização Mundial da Saúde publicada em 2017, 9,3% dos brasileiros tinham transtornos de ansiedade em 2015, a maior proporção entre os países analisados. No mundo, depressão e ansiedade levam à perda de 12 bilhões de dias de trabalho por ano. O custo chega a quase US$ 1 trilhão, segundo a OMS e a Organização Internacional do Trabalho (2022).

Em 2024, foram concedidos no Brasil 472 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais, com ansiedade e depressão entre os motivos mais frequentes, segundo o Ministério da Previdência Social. Quando leio esses números, penso nos líderes que passam meses tentando dar conta sozinhos antes de procurar ajuda.

Quando a ansiedade pede ajuda profissional

Quando um líder me pergunta se a ansiedade dele já passou do ponto, respondo que quem avalia isso é um profissional de saúde. A comparação da tabela não dá diagnóstico nenhum. Ela só ajuda você a decidir se está na hora de procurar esse profissional.

PontoAnsiedade do dia a diaSinal para procurar ajuda
Quando apareceAntes de algo específico, como uma apresentaçãoSem motivo claro, ou quase o tempo todo
Quanto duraPassa depois da situaçãoContinua por semanas
SonoMal na véspera, depois normalInsônia frequente
TrabalhoDá para trabalhar normalmenteAtrapalha a concentração, as decisões ou as relações
CorpoFrio na barriga, mãos suadasPalpitação, falta de ar ou aperto no peito: procure atendimento de saúde

Se você está em sofrimento intenso agora, ligue para o CVV no 188 (gratuito, 24 horas) ou, em emergência, para o SAMU no 192.

O que o líder pode fazer por si

No corporativo, a gente aprende cedo que líder não pode parecer frágil. Vi muitos líderes esconderem a ansiedade por isso, e esconder só adiava o cuidado. Pedir ajuda cedo também é uma decisão de líder, e é por ela que a lista começa.

  1. Procure ajuda cedo. Esperar a ansiedade “passar sozinha” pode prolongar o sofrimento, e psicólogos e médicos são os profissionais certos para avaliar o que está acontecendo.
  2. Proteja o sono e as pausas. Um ritual de fim de dia ajuda a cabeça a desligar, e deixei algumas ideias em como desconectar do trabalho.
  3. Diminua a incerteza onde puder. Perguntar ao chefe qual é o critério de sucesso e qual é o prazo real tira parte do combustível da ansiedade, e essa conversa está detalhada em como lidar com cobrança.
  4. Dê nome ao que sente. Dizer para si mesmo “estou ansioso com a reunião de amanhã” ajuda a separar a emoção do fato, e esse é o segundo passo da agilidade emocional.
  5. Movimente o corpo. A OMS recomenda atividade física regular também para a saúde mental.

E a ansiedade do time?

O papel do líder com o time é perceber, acolher e encaminhar, e o diagnóstico fica com os profissionais de saúde. Em 2022, as diretrizes da OMS sobre saúde mental no trabalho passaram a recomendar, pela primeira vez, a formação de gestores no tema. No Brasil, desde 2025 a NR-1 exige que as empresas incluam os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais.

Se alguém do time está diferente há semanas, chame para conversar em particular, com uma abertura simples.

“Tenho percebido você diferente nas últimas semanas e queria saber como você está.”

Depois, ouça sem julgar e sem dar conselho médico. Se fizer sentido, mostre os caminhos de apoio que a empresa oferece, como o plano de saúde, o programa de apoio ao empregado ou o RH. E olhe para a carga de trabalho, porque às vezes parte da resposta está numa prioridade que você mesmo pode tirar da frente.

Como olhar para a sua experiência como líder?

Para olhar para a liderança como um todo, e não só para a ansiedade, eu sugiro o RPE, Radar de Performance Emocional Executiva. Desenvolvi essa autoavaliação para percorrer dez dimensões da experiência de quem lidera. Ela não avalia ansiedade, não dá diagnóstico e não substitui uma consulta, mas ajuda a organizar o que você vive no trabalho.

Perguntas frequentes

Como controlar a ansiedade no trabalho?

No dia a dia, ajudam as pausas, o sono, a atividade física, diminuir a incerteza e dar nome ao que sente. Se a ansiedade é frequente, intensa ou atrapalha o trabalho, procure um psicólogo ou um médico.

Ansiedade no trabalho pode levar a afastamento?

Pode, se um profissional de saúde avaliar que é necessário. A decisão é médica, e os afastamentos longos passam pela perícia do INSS.

Como ajudar um funcionário com ansiedade?

Chame para uma conversa em particular e ouça sem julgar, sem tentar diagnosticar. Mostre os caminhos de apoio que a empresa oferece e veja se dá para ajustar a carga de trabalho dele.

É normal ficar ansioso antes de reuniões e apresentações?

Sim, quando a ansiedade aparece antes da situação e passa depois dela. Preparo e prática ajudam a diminuir a intensidade com o tempo.


Para os momentos mais difíceis da liderança, reuni ferramentas práticas e contatos de apoio no e-book SOS Líder.

Se quiser organizar o que vive como líder, reserve uns dez minutos tranquilos para o RPE.

Fontes

  1. Organização Mundial da Saúde. Depression and Other Common Mental Disorders: Global Health Estimates, 2017 (estimativas de 2015).
  2. Organização Mundial da Saúde e Organização Internacional do Trabalho. Mental health at work: policy brief, setembro de 2022.
  3. Organização Mundial da Saúde. WHO guidelines on mental health at work, 2022.
  4. Ministério da Previdência Social. Benefícios por incapacidade temporária concedidos por transtornos mentais em 2024.
  5. Ministério do Trabalho e Emprego. NR-1, atualizada pela Portaria MTE nº 1.419/2024.

Seu próximo nível não precisa custar sua saúde emocional.

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