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Como lidar com pressão no trabalho quando você é o líder

Por Fernanda Daniel, psicóloga (CRP 06/100698)02 de novembro de 20269 min de leitura

Como lidar com pressão no trabalho quando você é o líder

Para lidar com a pressão no trabalho, comece separando o que depende de você do que não depende. Dê nome ao que está sentindo antes de responder, negocie prioridades em vez de aceitar tudo e proteja suas pausas e o sono. Pressão faz parte da liderança. O que desgasta é aquela que nunca dá trégua e que você carrega sozinho.

Você já saiu de uma reunião sabendo que a resposta certa era outra, mas a pressão respondeu antes de você?

Eu vi isso acontecer várias vezes no RH, com líderes que entregavam bem. Eles não perdiam espaço por falta de resultado. Perdiam porque a pressão começava a falar por eles, num e-mail seco ou numa resposta atravessada na frente do time. A pressão não vai sumir da sua agenda, mas dá para mudar quem decide a resposta.

A pressão no trabalho é sempre ruim?

Não. Um pouco de pressão ajuda a focar e a decidir mais rápido. Desde o estudo de Yerkes e Dodson, de 1908, a psicologia descreve essa relação como uma curva, em que o desempenho melhora com a pressão até certo ponto e, dali em diante, começa a cair.

O problema começa quando a pressão deixa de ter começo e fim. A entrega do trimestre emenda na seguinte. A cabeça não desliga no fim de semana. E aguentar firme vira o único plano, o que no fundo só empurra a conta para a frente.

Quem lidera recebe pressão dos dois lados

De cima vêm as metas e as mudanças de rota. De baixo vêm as dúvidas do time, os conflitos e um cansaço que você enxerga antes de todo mundo. E espera-se que você absorva tudo isso sem deixar transparecer.

Mais cedo ou mais tarde, quase todo líder me fala da solidão da função, e eu entendo. A meta veio da diretoria. O time já está no limite. E quem responde a mensagem das 22h é você, quase sempre sem ninguém com quem falar abertamente sobre o que está difícil.

Os números confirmam esse desgaste. Segundo o Gallup, o engajamento dos gerentes no mundo caiu de 27% para 22% em 2025. Aqui no Brasil, os afastamentos do trabalho por transtornos mentais chegaram a 472 mil em 2024, o maior número em dez anos, segundo o Ministério da Previdência Social.

Pressão que mobiliza ou pressão que desgasta?

A mesma meta pode mobilizar um líder e esgotar outro. Pense em como você tem reagido nas últimas semanas e veja de que lado da tabela você fica mais.

SinalPressão que mobilizaPressão que desgasta
FocoVocê se concentra no que importaVocê pula de uma tarefa para outra sem terminar nenhuma
SonoDorme mal na véspera da entrega e depois volta ao normalAcorda de madrugada pensando no trabalho, noite após noite
Com o timeVocê cobra com clarezaVocê perde a paciência com coisas pequenas
Depois da entregaSente alívio e satisfaçãoJá está tenso com a próxima
Fim de semanaVocê desligaO celular continua na mão
DuraçãoTem começo e fimParece não ter fim

Se você ficou mais na coluna da direita, comece pelas atitudes que eu trabalho com os meus mentorados. E se esses sinais já duram semanas, vá também até a parte sobre quando procurar ajuda.

7 atitudes para lidar com a pressão no trabalho

1. Separe o que depende de você

Pegue tudo o que está pressionando você e divida em três colunas: o que você controla, o que consegue influenciar e o que não depende de você. Gaste sua energia nas duas primeiras. Para a terceira, um plano B ajuda bem mais do que horas de preocupação.

2. Dê nome ao que está sentindo

Antes de responder ao e-mail difícil, pare e diga para si mesmo o que está sentindo. Pode ser “estou irritado com o atraso”. Pode ser “estou com medo de não entregar”. Pesquisas da Universidade da Califórnia em Los Angeles indicam que colocar a emoção em palavras reduz a intensidade da reação. E é mais fácil decidir o que fazer com uma emoção que você reconhece do que com uma que está no comando sem você perceber.

3. Crie um intervalo antes de reagir

A resposta mais arriscada é aquela que sai no calor da reunião. Quando sentir que vai reagir, ganhe alguns minutos. Anote o ponto e diga que volta ao assunto, ou levante para buscar água e respire devagar, soltando o ar mais lentamente do que puxou. Quase nenhuma decisão importante precisa sair no mesmo minuto da cobrança.

4. Negocie prioridades em vez de aceitar tudo

Dizer sim para cada demanda nova e virar a noite parece o caminho mais rápido. Funciona melhor devolver a escolha para quem pediu, com uma frase simples como esta.

“Consigo entregar o relatório até sexta. Se o projeto novo também for para esta semana, qual dos dois sai da frente?”

Quem ouve isso entende que você está cuidando do resultado, e não só empilhando tarefas. E a decisão sobre o que fica para depois volta para quem tem autoridade para tomá-la.

5. Proteja suas pausas e o sono

Uma pausa curta entre reuniões e um horário para parar de ler mensagens fazem parte do trabalho. Não são um prêmio para o fim do dia. Com o sono, vale o mesmo cuidado. Ele quase sempre é o primeiro a ir embora quando a pressão aumenta, e é justamente o que mais faz falta na hora de decidir.

6. Não carregue sozinho

Tenha pelo menos uma pessoa com quem falar com franqueza, seja um par de outra área, um líder que você admira ou uma mentora. Na cultura do “sempre forte”, pedir isso parece fraqueza, mas é conversando que você enxerga o que sozinho não consegue ver.

Para líderes que vivem esse tipo de pressão todo dia, eu conduzo a mentoria Círculo de Aço: Liderança Inabalável. E se você ainda não sabe que tipo de apoio procurar, escrevi sobre a diferença entre coach de carreira e mentoria de carreira.

7. Passe contexto ao time, não ansiedade

Repassar a pressão do jeito que ela chegou só espalha o problema. Conte ao time o que mudou e o que pode esperar. Esconder também não funciona, porque as pessoas percebem a tensão no ar e, sem informação, preenchem o silêncio com o pior cenário.

Quando a pressão vira sinal de alerta?

Procure um profissional de saúde se, por semanas seguidas, você se reconhece em algum destes sinais.

  • Dorme mal.
  • Sente um cansaço que não passa com descanso.
  • Perde a paciência com facilidade.
  • Tem sintomas físicos, como dor de cabeça ou aperto no peito.
  • Precisa de álcool para relaxar.

A Organização Mundial da Saúde inclui o burnout na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como um fenômeno ligado ao trabalho. Ele é marcado por exaustão, distanciamento do trabalho e queda da eficácia profissional. Só um profissional de saúde pode avaliar o seu caso, e nem mentoria nem coaching substituem esse cuidado.

Se você está em sofrimento intenso agora, ligue para o CVV no 188 (gratuito, 24 horas) ou, em emergência, para o SAMU no 192.

Para os momentos mais agudos da liderança, eu reuni ferramentas práticas no e-book SOS Líder, guia de sobrevivência para gestores em crise.

Como saber se a pressão já está afetando sua liderança?

Nem todo efeito da pressão aparece nos números. Às vezes ele está numa conversa difícil que você vem adiando, ou no tempo que leva para se recuperar de uma semana pesada.

Foi pensando nisso que eu criei o RPE, Radar de Performance Emocional Executiva. É uma autoavaliação para líderes, rápida de responder, coisa de 10 minutos. No fim, você recebe uma leitura individual da sua experiência em dez dimensões, com uma indicação de por onde começar. Não se trata de diagnóstico. A ideia é ter um ponto de partida para você enxergar o que a pressão anda fazendo com a sua liderança.

Perguntas frequentes

Como lidar com pressão no trabalho sem perder o controle?

O mais importante é criar um intervalo entre a cobrança e a resposta. Dê nome ao que está sentindo, anote o ponto e volte a ele alguns minutos depois, porque quase nenhuma decisão importante precisa sair no calor da reunião.

Como lidar com a pressão do chefe por resultados?

Tente transformar a pressão em acordo. Pergunte qual é o critério de sucesso, qual é o prazo real e o que pode sair da frente, e depois registre por escrito o que foi combinado. Quando os dois lados sabem o que esperar, a pressão diminui para ambos.

A pressão no trabalho pode causar ansiedade?

Pode contribuir, sim. A pressão constante é um dos riscos psicossociais do trabalho, e desde 2025 a NR-1 exige que as empresas incluam esses riscos no gerenciamento de riscos ocupacionais. Se os sintomas de ansiedade aparecem com frequência, procure um profissional de saúde.

Como ajudar o time a lidar com a pressão?

Dê contexto e prioridades claras e converse a sós com quem parece sobrecarregado. Lembre também que o time copia o que você faz. Se você responde mensagens à meia-noite, as pessoas entendem que precisam fazer o mesmo.

Mentoria ajuda a lidar com a pressão no trabalho?

Na minha mentoria, a gente trabalha prioridades, a preparação de conversas difíceis e um jeito de liderar que caiba na sua vida. Ela não substitui o acompanhamento psicológico quando há sofrimento persistente.


Quer ver onde a pressão está aparecendo na sua liderança? Responda o RPE antes que a próxima semana puxada comece.

Se o momento pede uma reorganização emocional para você continuar crescendo, é para isso que eu conduzo a Mentoria Fênix.

Fontes

  1. Gallup. State of the Global Workplace, edição 2026.
  2. Ministério da Previdência Social. Benefícios por incapacidade temporária concedidos por transtornos mentais em 2024 (série iniciada em 2014).
  3. Organização Mundial da Saúde. CID-11, código QD85: burnout como fenômeno ocupacional.
  4. Ministério do Trabalho e Emprego. NR-1, atualizada pela Portaria MTE nº 1.419/2024.
  5. Yerkes, R. M.; Dodson, J. D. The relation of strength of stimulus to rapidity of habit-formation. 1908.
  6. Lieberman, M. D. e outros. Putting feelings into words. Psychological Science, 2007.

Seu próximo nível não precisa custar sua saúde emocional.

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