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Síndrome do impostor: o que é, como aparece no trabalho e o que ajuda quando você lidera

Por Fernanda Daniel, psicóloga (CRP 06/100698)06 de novembro de 20269 min de leitura

Síndrome do impostor: o que é, como aparece no trabalho e o que ajuda quando você lidera

Síndrome do impostor é o nome popular da sensação persistente de que o seu sucesso não foi merecido. Quem a vive teme ser descoberto, a qualquer momento, como menos competente do que parece. Ela não é um diagnóstico clínico e não consta como transtorno nos manuais diagnósticos. Aparece com frequência em quem acaba de ser promovido, e conversar, olhar para as evidências e combinar critérios claros ajudam.

Escuto muito de quem acabou de ser promovido: “Daqui a pouco vão perceber que eu não sou tudo isso.” Em geral, quem diz isso tem um histórico de entregas que justificaria a promoção duas vezes. E ainda assim passa os primeiros meses preparando cada reunião como se fosse uma prova, com medo de que uma pergunta difícil revele a farsa.

O que é a síndrome do impostor?

O fenômeno foi descrito em 1978 pelas psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes, da Universidade Estadual da Geórgia, nos Estados Unidos. Elas o chamaram de “fenômeno do impostor” e partiram de cerca de cinco anos de atendimento a mais de 150 mulheres de alto desempenho. Apesar das conquistas acadêmicas e profissionais, essas mulheres seguiam convencidas de que não eram tão inteligentes assim e de que tinham enganado quem pensava o contrário.

A palavra “síndrome” veio depois, na linguagem do dia a dia, e confunde, porque sugere uma doença. A ideia chegou ao grande público com o livro que Clance lançou em 1985, e as pesquisas seguintes mostraram que homens também vivem isso. Na prática, falo de um padrão de pensamento. A pessoa credita o próprio sucesso à sorte, ao momento ou a um esforço fora do comum, e quase nunca à competência.

Síndrome do impostor é doença?

A síndrome do impostor não é um diagnóstico clínico e não consta como transtorno nos manuais que os profissionais de saúde usam. A revisão sistemática de Dena Bravata e colegas, de 2020, lembra que ela não aparece no DSM, da Associação Americana de Psiquiatria, nem na CID-10, da OMS.

Por isso eu peço cuidado com o autodiagnóstico. Desconfie de listas. Uma lista de sinais encontrada na internet não diz se o que você sente é a insegurança de uma fase nova, ansiedade, depressão ou outra coisa. A mesma revisão encontrou a síndrome do impostor associada com frequência à depressão e à ansiedade. Se o sofrimento é persistente e já atrapalha o sono, o humor ou a vida fora do trabalho, procure um psicólogo ou um psiquiatra. Mentoria e conversa com o chefe ajudam no trabalho, e nenhuma das duas substitui esse cuidado.

Se o sofrimento estiver intenso agora, ligue para o CVV no 188, que atende de graça e a qualquer hora, ou, numa emergência, para o SAMU no 192.

O que a pesquisa diz sobre quantas pessoas sentem isso

A revisão de Bravata, publicada no Journal of General Internal Medicine, reuniu 62 estudos com 14.161 participantes. A prevalência variou de 9% a 82%, conforme o instrumento e a nota de corte usados em cada estudo. É uma faixa enorme. Uma distância assim diz mais sobre a dificuldade de medir o fenômeno do que sobre quantas pessoas o vivem.

Dois outros achados me interessam. Dos 33 estudos que compararam homens e mulheres, 16 encontraram taxas maiores entre elas e 17 não encontraram diferença. E a síndrome apareceu associada a desempenho pior no trabalho, menos satisfação com ele e burnout.

Entre executivas, há um retrato da KPMG. Em 2020, a consultoria ouviu 750 mulheres a um ou dois passos do C-level, e 75% disseram já ter sentido a síndrome do impostor em algum momento da carreira. Eram participantes de um encontro de liderança da própria KPMG, um grupo escolhido, então o número não vale para todas as profissionais.

Sintomas: os sinais que aparecem no trabalho

Prefiro falar em sinais, porque não se trata de um quadro clínico, e nenhum deles serve para você se diagnosticar. São os que eu mais vejo em líderes.

  • Creditar cada resultado bom à sorte, ao time ou ao momento do mercado, e cada erro a você.
  • Preparar uma reunião curta como se fosse uma banca de mestrado, por medo da pergunta que você não saberia responder.
  • Adiar até a véspera, virar a noite e concluir que só deu certo por causa do esforço de última hora.
  • Não conseguir receber um elogio sem corrigir ou diminuir o que foi dito.
  • Esperar dominar tudo o que um projeto ou cargo pede antes de se candidatar a ele.
  • Comparar os seus bastidores com a vitrine dos colegas.

Síndrome do impostor em líderes recém-promovidos

Manfred Kets de Vries, professor do INSEAD, escreveu sobre executivos que se sentem uma fraude num artigo de 2005 na Harvard Business Review. Ele abre o texto com o caso de um gerente promovido a um cargo sênior que, no fundo, desconfiava não ser bom o bastante para o posto.

A promoção é um gatilho previsível. Até ontem você era avaliado pelo que sabia fazer melhor do que todo mundo. No cargo novo, as perguntas são outras. Você ainda não tem as respostas, e isso é esperado. Escrevi sobre essa troca de identidade no artigo sobre primeira liderança. A sensação de não estar à altura confunde falta de experiência, normal no começo, com falta de capacidade.

A armadilha que mais vejo é compensar com volume. O recém-promovido tenta provar que merece o cargo trabalhando mais horas e revisando tudo o que o time faz, e acaba ocupando o espaço das pessoas que deveria desenvolver. Para quem assumiu uma diretoria ou um cargo de C-level, deixei um roteiro sobre os primeiros 100 dias no cargo novo.

Há um estudo que ajuda a olhar o assunto com menos culpa. Basima Tewfik, professora do MIT, publicou em 2022 quatro estudos com profissionais de um gestor de investimentos, médicos em formação e empregados de vários setores. Quem tinha pensamentos de impostor com mais frequência foi avaliado pelos outros como mais eficaz nas relações, porque prestava mais atenção em quem estava em volta. Ela mesma avisa que esse achado não torna o problema menor.

Como lidar quando a sensação aparece

Entre os 62 estudos da revisão de Bravata, nenhum avaliava um tratamento específico para a síndrome do impostor. Desconfie de quem promete acabar com ela em poucas sessões. No trabalho, o que eu vejo ajudar são movimentos simples, e nenhum deles pede que você finja uma confiança que não sente.

  1. Fale do assunto com alguém de confiança. Na pesquisa da KPMG, 72% das executivas buscaram o conselho de um mentor ou de alguém de confiança para enfrentar a síndrome. Dizer a frase em voz alta tira um pouco da força da sensação de farsa.
  2. Separe sensação de evidência. Anote, por algumas semanas, o que você entregou, o retorno que recebeu e de quem veio. A sensação vai dizer que foi sorte, e a lista vai mostrar um padrão.
  3. Peça os critérios de sucesso do cargo. Combine com o seu chefe o que se espera de você em seis meses. Sem critério, a régua fica na sua cabeça, e lá ela está sempre alta demais. Na mesma pesquisa, 47% das executivas apontaram um gestor que apoia como o fator do trabalho que mais ajudava.
  4. Troque provar por aprender. Conte ao time e ao chefe o que você ainda está aprendendo no cargo. Quem admite isso cedo para de gastar energia escondendo.
  5. Olhe também para o ambiente. Ruchika Tulshyan e Jodi-Ann Burey argumentaram, na Harvard Business Review, em 2021, que o rótulo joga sobre a pessoa um problema que tantas vezes é do lugar. Se você é a única pessoa com o seu perfil na mesa, ou se nunca recebe critérios claros, parte da dúvida vem daí.

Quando o desafio é crescer num cargo novo ao longo de meses, existe a mentoria executiva, um acompanhamento individual de 3 a 10 meses para quem assume um novo patamar. Ela trabalha posicionamento, decisões e conversas difíceis. Não trata sofrimento emocional, e quando ele aparece, eu oriento a procurar um profissional de saúde.

Onde o RPE pode ajudar

O RPE: Radar de Performance Emocional Executiva não mede síndrome do impostor, e eu não o criei para isso. É uma autoavaliação online de cerca de 10 minutos, com leitura em dez dimensões. Uma delas, “Julgamento e autoconfiança”, olha para o quanto críticas e avaliações de superiores mexem com a sua confiança. Também não faz diagnóstico. Ele ajuda você a enxergar onde o medo de errar diante dos outros anda interferindo nas suas decisões, para levar essa leitura a uma conversa com quem pode ajudar.

Perguntas frequentes

Síndrome do impostor é doença?

Não. Ela não é um diagnóstico clínico e não aparece como transtorno no DSM nem na CID-10. Pode vir junto com ansiedade ou depressão, por isso, se o sofrimento for persistente, procure um psicólogo ou um psiquiatra.

Quais são os sintomas da síndrome do impostor?

Os sinais mais comuns no trabalho são atribuir o sucesso à sorte, preparar demais ou adiar até a véspera, desconfiar de elogios e ter medo de ser “descoberto”. Eles ajudam a reconhecer o padrão, sem servir de diagnóstico.

Homens também têm síndrome do impostor?

Sim. Clance e Imes descreveram o fenômeno em mulheres, em 1978, mas a revisão de Bravata mostrou que ele é comum nos dois sexos. Dos 33 estudos que compararam homens e mulheres, 17 não encontraram diferença.

Por que a síndrome do impostor aparece depois de uma promoção?

Porque os critérios de sucesso mudam de uma hora para outra. Você deixa de ser avaliado pelo que domina e passa a responder pelo que ainda está aprendendo. A falta de experiência, normal no começo, acaba lida como falta de capacidade.


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Se quiser olhar para o quanto críticas e avaliações estão mexendo com a sua confiança, reserve dez minutos para o RPE.

Fontes

  1. Clance, P. R.; Imes, S. A. The imposter phenomenon in high achieving women: dynamics and therapeutic intervention. Psychotherapy: Theory, Research & Practice, v. 15, n. 3, p. 241-247, 1978.
  2. Bravata, D. M. et al. Prevalence, predictors, and treatment of impostor syndrome: a systematic review. Journal of General Internal Medicine, v. 35, n. 4, p. 1252-1275, 2020.
  3. KPMG. Advancing the Future of Women in Business: A KPMG Women’s Leadership Summit Report. Comunicado de 7 de outubro de 2020.
  4. Kets de Vries, M. F. R. The dangers of feeling like a fake. Harvard Business Review, v. 83, n. 9, set. 2005.
  5. Tewfik, B. The impostor phenomenon revisited: examining the relationship between workplace impostor thoughts and interpersonal effectiveness at work. Academy of Management Journal, v. 65, n. 3, p. 988-1018, 2022.
  6. MIT News. Study finds an unexpected upside to workplace impostor thoughts. 15 de abril de 2022.
  7. Tulshyan, R. (hoje Ruchika T. Malhotra); Burey, J.-A. Stop telling women they have impostor syndrome. Harvard Business Review, 11 de fevereiro de 2021.

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