Agilidade emocional: o que é e como usar quando você lidera

Agilidade emocional é a capacidade de lidar com pensamentos e emoções difíceis sem negá-los e sem ser comandado por eles, escolhendo o que fazer a partir do que é importante para você. O conceito é da psicóloga Susan David, da Escola de Medicina de Harvard, e cabe em quatro passos: reconhecer o padrão, dar nome ao que sente, aceitar e agir pelos seus valores.
Escuto muito de líderes, quase com essas palavras: “Eu sei que não devia ficar assim, mas a reunião acabou faz duas horas e eu ainda estou remoendo.” Quem me diz isso em geral já tentou de tudo para parar de sentir. Respirou fundo, se forçou a pensar positivo. E o incômodo continuou lá, agora com uma camada de culpa por não ter conseguido se livrar dele.
É para esses momentos que a agilidade emocional serve. Você pode sentir raiva quando o diretor critica o seu número na frente de todo mundo, ou um aperto no peito quando o liderado em quem mais confiava pede demissão, e ainda assim escolher o que fazer em seguida. A emoção entra na conta como informação, e a decisão continua sendo sua.
De onde vem o conceito de agilidade emocional?
Susan David e Christina Congleton apresentaram a ideia em 2013, num artigo da Harvard Business Review que a revista escolheu como uma das ideias de gestão do ano. Em 2016, David ampliou o conceito no livro “Agilidade Emocional”.
A base vem da terapia de aceitação e compromisso (ACT), uma linha da psicologia que trabalha a relação da pessoa com os próprios pensamentos. Gosto de resumir assim a virada que ela propõe: em vez de perguntar “como eu paro de sentir isso?”, a pessoa passa a se perguntar “o que eu faço com o que estou sentindo?”.
Pensar positivo não é agilidade emocional
Diante de uma emoção difícil, a tendência é escolher uma de duas saídas. Ou você engole o que sente e segue em frente, ou passa dias remoendo a situação. Vejo as duas o tempo todo nos meus mentorados. E nenhuma das duas resolve. A emoção engolida volta na hora menos oportuna, quase sempre com quem não tem nada a ver com a história, e a ruminação gasta a energia de que você precisaria para decidir.
Forçar o pensamento positivo entra na mesma lista. Dizer a si mesmo “está tudo bem” quando não está cria uma segunda tarefa, a de fingir, e você passa a gastar energia em duas frentes. A agilidade emocional vai por outro caminho, que é olhar para o que sente com curiosidade, aproveitar a informação que a emoção traz e só então escolher a ação.
Os 4 passos da agilidade emocional na rotina do líder
| Passo | O que fazer | Exemplo na liderança |
|---|---|---|
| Reconhecer o padrão | Perceber quando você está preso a um pensamento ou a uma reação que se repete | “Toda vez que o diretor questiona meu número, eu me justifico demais.” |
| Dar nome | Separar o pensamento do fato | “Estou tendo o pensamento de que vou parecer incompetente.” |
| Aceitar | Deixar a emoção estar ali, sem brigar com ela e sem obedecer a ela | “Estou ansioso com essa apresentação, e tudo bem estar.” |
| Agir pelos valores | Escolher a ação que combina com o líder que você quer ser | “Quero ser um líder que fala a verdade. Vou apresentar o número real e o plano para recuperar.” |
1. Reconheça o padrão
O primeiro sinal de que uma emoção fisgou você é a repetição, a mesma reação diante de pessoas e situações diferentes. Quando percebo isso num mentorado, peço que ele anote, por alguns dias, quando a reação aparece e o que aconteceu logo antes. O gatilho quase sempre é mais previsível do que parecia.
2. Dê nome ao pensamento e à emoção
Trocar “eu vou fracassar” por “estou tendo o pensamento de que vou fracassar” parece só um detalhe de linguagem. Na prática, a frase nova cria uma distância entre você e o pensamento e lembra que ele é uma interpretação, e não um fato.
Com a emoção, vale ser específico. “Estressado” diz pouco, enquanto “frustrado com o atraso do fornecedor” já aponta o que fazer.
3. Aceite o que sente
Quando falo em aceitar, alguns líderes torcem o nariz, porque a palavra soa como desistir ou concordar com o que aconteceu. A ideia é bem mais simples. Você para de gastar energia brigando com o que sente e passa a ouvir o que a emoção está dizendo. A irritação pode estar mostrando que um limite foi ultrapassado, e a ansiedade, que aquilo importa para você.
4. Aja pelos seus valores
A pergunta que eu mais uso com os meus mentorados nessa etapa é simples:
“O que o líder que eu quero ser faria agora?”
Ninguém precisa de uma grande virada para isso. Mudar o jeito de abrir uma conversa difícil, ou de responder a uma crítica que doeu, já é agir pelos seus valores. São esses ajustes pequenos, repetidos semana após semana, que o time acaba percebendo.
Nos anos em que trabalhei no RH, os líderes que eu mais admirei se abalavam como qualquer um. Ficavam irritados, às vezes visivelmente chateados. O que eles tinham de diferente era conseguir dizer “isso me incomodou” e, na mesma reunião, tomar a decisão que precisava ser tomada.
Exercício de 5 minutos para a próxima situação difícil
Faça logo depois de uma reunião tensa ou antes de uma conversa que você vem adiando. Não precisa caprichar. Eu peço aos meus mentorados que escrevam as respostas, no papel ou no celular, porque escrever obriga a gente a ser específico.
- A situação, numa frase. Algo como “O diretor cortou meu orçamento na frente do time.”
- O pensamento, com a fórmula do passo 2. “Estou tendo o pensamento de que perdi a confiança dele.”
- A emoção, numa palavra específica. Frustração, vergonha ou medo dizem bem mais do que um “estou mal”.
- O valor em jogo. O que importa para você nessa situação? Pode ser a transparência com o time, por exemplo.
- Uma ação pequena para as próximas 24 horas. “Vou pedir 15 minutos a ele para entender o critério do corte.”
Se a ação parecer pequena demais, ela está no tamanho certo. A ideia é que dê para fazer amanhã cedo, antes que a vontade de deixar para depois apareça.
Agilidade emocional e inteligência emocional: qual a diferença?
A inteligência emocional é o conjunto de competências para perceber e administrar as próprias emoções e as dos outros. A agilidade emocional é um jeito de agir quando a situação aperta, e se apoia sobretudo em duas dessas competências, a autoconsciência e a autorregulação. Se você quer o quadro completo, escrevi um guia sobre inteligência emocional no trabalho.
Como saber se você está preso a um padrão?
Às vezes o padrão só aparece quando alguém de fora aponta. Outras vezes, quando você junta várias situações e percebe que reagiu do mesmo jeito em todas. O RPE, Radar de Performance Emocional Executiva, ajuda nesse segundo caminho. Montei essa autoavaliação, que não é um diagnóstico, para reunir num lugar só situações que, no dia a dia, você vive uma de cada vez. O resultado vem organizado em dez dimensões, e é ali que os seus padrões começam a aparecer.
Perguntas frequentes
Quem criou o conceito de agilidade emocional?
Foi a psicóloga Susan David, da Escola de Medicina de Harvard. Ela apresentou o conceito com Christina Congleton na Harvard Business Review, em 2013, e o aprofundou no livro “Agilidade Emocional”, lançado em 2016.
Qual a diferença entre agilidade emocional e resiliência?
Resiliência é a capacidade de se recuperar depois de uma adversidade. A agilidade emocional diz respeito ao momento em que o pensamento e a emoção aparecem, e à escolha do que fazer ali, guiada pelos seus valores. Na prática, as duas andam juntas, e uma ajuda a outra.
Agilidade emocional é o mesmo que controle emocional?
Não. No uso comum, controle emocional é segurar a reação. A agilidade emocional começa por aceitar o que você sente, para depois escolher o que fazer com isso. Escrevi sobre as estratégias de regulação no artigo de controle emocional no trabalho.
Como desenvolver agilidade emocional no trabalho?
Com prática, como qualquer habilidade. Use os quatro passos nas situações difíceis da semana e faça o exercício de cinco minutos por escrito. Também ajuda pedir a alguém de confiança que diga, com franqueza, como você reage sob pressão, porque a gente raramente se enxerga do lado de fora.
Agilidade emocional substitui terapia?
Não. É uma habilidade que ajuda na rotina de quem lidera. Se existe sofrimento persistente, o caminho é procurar um profissional de saúde.
Quer enxergar os seus padrões como líder? Separe dez minutos para o RPE e veja onde as suas reações se repetem.
Se as emoções difíceis viraram rotina e você quer recuperar o seu centro emocional, veja a Mentoria Fênix.
Fontes
- David, S.; Congleton, C. Emotional agility. Harvard Business Review, novembro de 2013.
- David, S. Agilidade Emocional. 2016.
- Hayes, S. C.; Strosahl, K. D.; Wilson, K. G. Acceptance and Commitment Therapy. 1999.
