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Como ser um bom líder sem se esgotar no caminho

Por Fernanda Daniel, psicóloga (CRP 06/100698)02 de novembro de 20268 min de leitura

Como ser um bom líder sem se esgotar no caminho

Aprender como ser um bom líder começa por dar direção, desenvolver as pessoas, decidir e se comunicar bem. E por uma parte que quase nunca entra nas listas: fazer isso por anos sem se esgotar. As pesquisas do Google com os próprios gestores mostram que o bom gestor se faz nas atitudes do dia a dia, como orientar o time sem microgerenciar. E elas dependem da energia de quem lidera.

Ao longo da minha carreira no RH, participei de muitas decisões de promoção. Na maioria delas, a pessoa escolhida era a melhor no que fazia, e quase ninguém perguntava se ela tinha sido preparada para liderar. Ela aprendia do jeito mais caro, no susto e com o time olhando. E a parte mais difícil, continuar liderando bem sem pagar com a própria energia, ela aprendia sozinha.

O que a pesquisa diz sobre bons líderes?

Em 2008, o Google começou a estudar os próprios gestores no Projeto Oxygen. Parte da empresa achava que gestores não mudavam nada no resultado, e os dados mostraram o contrário: as equipes dos melhores gestores tinham resultados melhores e mais gente querendo ficar. E o que esses gestores tinham em comum cabe numa semana normal de trabalho.

ComportamentoComo aparece na semana
É um bom coachPergunta antes de dar a resposta
Dá autonomia e não microgerenciaCombina o resultado e deixa o caminho com o time
Cria um ambiente inclusivo e se importa com as pessoasSabe o que anda difícil para cada um
É produtivo e focado em resultadoTira obstáculos do caminho do time
Comunica bem, ouve e compartilha informaçãoExplica o porquê das decisões
Apoia o desenvolvimento de carreiraConversa sobre o próximo passo de cada pessoa
Tem visão e estratégia clarasO time sabe para onde está indo
Tem conhecimento técnico para orientarAjuda a resolver quando o time trava
Colabora com outras áreasResolve dependências sem esperar escalar
DecideNão deixa decisões importantes paradas

O Gallup chegou a uma conclusão parecida por outro caminho e estima que 70% da diferença de engajamento entre uma equipe e outra vem do gestor. Nas pesquisas de clima que acompanhei no RH, eu via isso com frequência. Duas áreas da mesma empresa, com as mesmas regras e os mesmos benefícios, ficavam em pontas opostas, e a diferença estava em quem liderava cada uma.

As 3 frentes de um bom líder: direção, pessoas e energia

Quando mostro essa lista em mentoria, a gente logo percebe que ela cabe em duas frentes conhecidas, dar direção e cuidar das pessoas. Eu acrescento uma terceira, da qual as outras duas dependem: a energia de quem lidera.

FrenteO que o time precisa de vocêO que você precisa para entregar
DireçãoPrioridades definidas e decisões tomadasSaber o que a empresa espera e poder negociar
PessoasEscuta, feedback e desenvolvimentoTempo na agenda e repertório para conversas difíceis
EnergiaUm líder que mantém o tom nos dias ruinsRecuperação, limites e alguém com quem conversar

Por que bons líderes se esgotam?

A função junta a pressão de quem está acima com a de quem está abaixo, e a recuperação é a primeira coisa que sai da agenda quando o mês aperta. Segundo o Gallup, o engajamento dos gerentes no mundo caiu de 27% para 22% em 2025.

Em 24 anos de RH, vi muitos líderes que sabiam exatamente o que fazer e já não tinham energia para fazer. O sinal aparecia em coisas pequenas, como o feedback que ia ficando para a semana seguinte ou uma resposta ríspida numa reunião que depois tirava o sono. Liderar bem num trimestre bom é uma coisa. Fazer isso por dez anos pede que você cuide também de quem lidera, e eu raramente vi essa parte num plano de desenvolvimento.

7 hábitos de um bom líder que também protegem a sua energia

1. Dê direção clara

Na segunda-feira, conte ao time quais são as três prioridades da semana e o que cada um pode esperar de você. Combinar o critério de sucesso logo no começo evita aquela cobrança difusa do fim do mês, em que ninguém sabe direito o que faltou.

2. Faça conversas individuais regulares

Reserve trinta minutos a cada quinze dias para cada pessoa e abra com uma pergunta que não se responde com sim ou não, como “o que está mais difícil para você agora?”. Com os meus mentorados, vejo essa conversa ser a primeira a cair quando a semana aperta, e é nela que os problemas aparecem antes de virar crise.

3. Dê feedback com fato e impacto

Fale da situação, do comportamento e do impacto, sem julgar a pessoa. “Na reunião de ontem, você interrompeu a colega três vezes, e ela desistiu de apresentar a proposta” ajuda mais do que “você precisa ser mais profissional”. O passo a passo está no guia de inteligência emocional no trabalho, e o outro lado, o de receber feedback, está em como lidar com críticas.

4. Delegue o que outras pessoas podem fazer

A pergunta que eu mais faço sobre delegação é “o que, dessa lista, só você pode fazer?”. Isso fica com você, e o resto vira desenvolvimento para alguém do time. Centralizar parece mais seguro, mas é o caminho mais curto para o esgotamento e com frequência anda junto com a dificuldade de estabelecer limites no trabalho.

5. Discorde e deixe discordarem

Um time que pode discordar de você sem medo erra menos em silêncio, porque o problema aparece na reunião e não no corredor. Isso também se ensina pelo exemplo, discordando com respeito de quem está acima de você. Escrevi um passo a passo em como discordar do chefe.

6. Proteja a sua recuperação

Um ritual para fechar o dia e algumas horas sem mensagens protegem a qualidade das decisões do dia seguinte. Muita gente resiste a isso porque parece luxo, até perceber que as mensagens de que mais se arrepende foram escritas tarde da noite. Deixei algumas formas de fazer isso em como desconectar do trabalho.

7. Tenha com quem conversar

A liderança fica solitária quando não há ninguém com quem pensar em voz alta. Pode ser um par de outra área, um grupo de líderes ou uma mentora, de preferência alguém fora da sua linha de reporte, com quem você possa falar sem filtro. Expliquei as diferenças entre esses caminhos em coaching executivo e em coach de carreira ou mentoria de carreira.

Bom líder ou líder bonzinho?

Uma frase que eu ouço bastante de quem acabou de ser promovido é “quero ser o chefe que eu não tive”. A intenção é boa, e às vezes vira o líder bonzinho, que evita conflito, aceita todo prazo e esconde do time qualquer notícia ruim. Esse líder se esgota primeiro, porque carrega sozinho tudo o que não quis dividir. Ser um bom líder inclui cobrar, dizer não, dar feedback duro e tomar decisões impopulares, com respeito e explicando o porquê.

Está começando agora?

A primeira gestão tem desafios próprios, como liderar quem até ontem era colega e parar de fazer o trabalho do time. Montei um plano para os primeiros 90 dias no guia da primeira liderança.

Como saber onde a sua liderança precisa de atenção?

Criei o RPE, Radar de Performance Emocional Executiva, para que essa resposta não dependa só da intuição. A autoavaliação olha para a sua experiência como líder em dez dimensões. Duas delas conversam direto com os hábitos que descrevi, “Decisões, delegação e conflitos” e “Exaustão e energia”. Não há diagnóstico no resultado, só um retrato do momento para você escolher por onde começar.

Perguntas frequentes

Quais são as características de um bom líder?

Pelas pesquisas do Google, um bom líder orienta o time como um coach, dá autonomia sem microgerenciar e se importa com as pessoas. Também foca em resultado, comunica bem, apoia a carreira do time, tem visão clara, conhece o trabalho, colabora e decide. Eu acrescentaria à lista cuidar da própria energia, porque é ela que permite fazer tudo isso por anos.

Como se tornar um líder?

Comece a liderar antes do cargo, assumindo um projeto, ajudando colegas a destravar problemas e mostrando o que você entrega. Diga ao seu chefe que quer liderar, porque no RH eu vi gente boa ficar fora de promoções por nunca ter dito isso. Quando a promoção vier, o guia da primeira liderança ajuda nos primeiros meses.

O que um líder não deve fazer?

Microgerenciar, centralizar tudo, fugir das conversas difíceis, mudar de prioridade toda semana e repassar ao time a pressão do jeito que ela chegou de cima.

Como ser um bom líder de equipe sem se esgotar?

Delegue o que outra pessoa pode fazer, negocie prioridades em vez de aceitar tudo, proteja as suas horas de recuperação e tenha alguém com quem conversar. Cuidar da própria energia faz parte do trabalho de quem lidera, tanto quanto cuidar da energia do time.


Quer saber onde a sua liderança precisa de atenção? Comece pelo RPE, a autoavaliação de 10 minutos para líderes.

Se você é gestor, gerente ou diretor e quer conversar sobre o seu momento, conheça a minha mentoria para executivos.

Sua liderança não merece seu sacrifício. Ela precisa da sua presença.

Fontes

  1. Google re:Work. Guia do Projeto Oxygen sobre os comportamentos dos bons gestores.
  2. Garvin, D. A. How Google sold its engineers on management. Harvard Business Review, dezembro de 2013.
  3. Gallup. State of the American Manager, 2015 (70% da variação no engajamento das equipes atribuída ao gestor).
  4. Gallup. State of the Global Workplace, edição 2026.

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