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Como discordar do chefe sem colocar a carreira em risco

Por Fernanda Daniel, psicóloga (CRP 06/100698)02 de novembro de 20266 min de leitura

Como discordar do chefe sem colocar a carreira em risco

Para discordar do chefe, escolha a hora e o lugar, de preferência uma conversa em particular. Comece pelo objetivo que vocês têm em comum, traga fatos em vez de impressões, proponha uma alternativa e deixe claro que vai apoiar a decisão final. Feita assim, a discordância não enfraquece a sua posição. O que costuma sair caro é o silêncio que vira problema lá na frente.

Quando eu estava no RH, vi a mesma história se repetir em empresas de todo tipo. A decisão é anunciada na reunião, alguém na mesa enxerga um problema, pensa em falar, faz as contas do risco e fica quieto. Meses depois o problema aparece, e a primeira pergunta que se ouve é “ninguém viu isso antes?”. Quase sempre alguém viu.

Série: 5 situações que pesam na liderança

  1. Discordar de superiores (você está aqui)
  2. Estabelecer limites
  3. Lidar com críticas
  4. Administrar cobranças
  5. Desconectar-se do trabalho

Por que é tão difícil discordar de quem está acima?

Porque o risco parece pessoal. Discordar de um par custa, no máximo, uma conversa desconfortável. Discordar de quem decide a sua avaliação e a sua próxima promoção parece custar bem mais. E a gente faz essa conta antes mesmo de abrir a boca.

A professora Amy Edmondson, da Harvard Business School, estuda o outro lado dessa conta, que ela chama de segurança psicológica. É a confiança de que o time é um lugar seguro para correr riscos interpessoais, como discordar ou admitir um erro. Quando o Google estudou mais de 180 equipes no Projeto Aristóteles, a segurança psicológica foi o fator que mais diferenciou as equipes eficazes.

O ambiente explica parte do silêncio. Costumo dizer aos líderes que acompanho que discordar, no fim das contas, é menos difícil do que carregar, depois, o que ficou sem ser dito. A conversa desconfortável dura minutos. O “eu vi e não falei” acompanha a gente por meses.

A diferença entre discordar e criar atrito

Quando reviso com um mentorado uma discordância que deu errado, com frequência o conteúdo estava certo. Foi a forma que atrapalhou.

PontoDiscordância que ajudaDiscordância que cria atrito
MomentoEm particular, ou na reunião em forma de perguntaNa frente de todos, em tom de correção
Ponto de partidaO objetivo comum: “queremos que o lançamento dê certo”O erro do outro: “isso não vai funcionar”
BaseDados, riscos e exemplosImpressões do tipo “eu acho que…”
PropostaUma alternativa viávelSó a crítica
Depois da decisãoApoio, mesmo discordandoResistência silenciosa ou “eu avisei”

5 passos para discordar do chefe

1. Pergunte antes de afirmar

Às vezes falta a você um contexto que o chefe tem, e a decisão que parecia errada faz todo o sentido quando aparece a peça que faltava. Por isso eu gosto de abrir com uma pergunta genuína, sem ironia:

“O que levou a essa decisão?”

2. Escolha a hora e o lugar

Uma conversa em particular rende mais do que um debate na frente de todos. Fuja do fim de um dia caótico. Se o ponto precisa mesmo ser levantado na reunião, use uma pergunta em vez de uma correção.

3. Comece pelo objetivo comum

Antes de falar do caminho, mostre que vocês querem chegar ao mesmo lugar. “Quero que o lançamento dê certo, e vejo um risco no prazo” abre a conversa de um jeito bem diferente de “esse prazo não fecha”.

4. Traga fatos e uma alternativa

“Nos dois últimos lançamentos, a homologação levou três semanas. Se mantivermos o dia 15, sugiro reduzir o escopo da primeira versão.” Um fato acompanhado de uma proposta é bem mais difícil de descartar do que uma opinião solta.

5. Combine o que acontece depois

Deixe claro que vai seguir a decisão, mesmo que ela não mude: “Se ficar o dia 15, eu sigo com ele e aviso cedo se o risco aparecer.” A Amazon colocou isso entre os seus princípios de liderança com o nome de “discordar e se comprometer”. É o passo que eu mais trabalho na mentoria, porque mostra ao chefe que você levantou o risco sem virar oposição.

Frases prontas para a próxima reunião

Eu sugiro estas aos meus mentorados, e cada um adapta ao próprio jeito de falar.

  • “Posso trazer um ponto de atenção antes de fecharmos?”
  • “Vejo um risco aqui e queria checar se ele já foi considerado.”
  • “Concordo com o objetivo. Minha dúvida é sobre o caminho.”
  • “Se não for possível mudar o prazo, o que podemos tirar do escopo?”

E se o chefe não aceita discordância?

Aí a conversa é outra. Se toda discordância, mesmo respeitosa e com fatos, vira punição, já não adianta ajustar a forma de falar, porque o problema está no ambiente. Registre por escrito os riscos que você apontou e converse com alguém de fora sobre os próximos passos da sua carreira. O jeito como um lugar reage a quem discorda é um dado importante para decidir onde você quer crescer.

Como o RPE olha para a discordância

Quando criei o RPE, o Radar de Performance Emocional Executiva, coloquei a dificuldade de discordar de quem está acima na dimensão “Posicionamento e comunicação”. É uma das dez dimensões da autoavaliação, que não dá diagnóstico. Serve para você perceber em que momentos a hierarquia trava a sua voz.

Perguntas frequentes

Como discordar do chefe por e-mail?

Se der, prefira conversar. Quando precisar ser por e-mail, seja breve. Escreva o objetivo comum, o fato que preocupa e uma alternativa, e peça uma conversa rápida. Evite copiar outras pessoas na primeira mensagem, porque a cópia transforma a discordância numa disputa com plateia.

Discordar do chefe pode prejudicar a carreira?

Em empresas saudáveis, discordar com respeito faz parte do trabalho de quem lidera. O risco cresce com o tom, com a plateia e com a insistência depois que a decisão foi tomada. Se qualquer discordância parece ameaçar o seu emprego, observe o ambiente com atenção, porque essa reação também diz algo sobre a empresa.

Como discordar do chefe na frente do time?

Eu evitaria. Se o ponto não pode esperar, faça uma pergunta aberta na reunião e leve a discussão para uma conversa em particular. Corrigir o chefe em público tende a virar uma disputa de autoridade, e aí ninguém mais discute o assunto.

O que fazer depois de discordar e a decisão não mudar?

Comprometa-se com a decisão, registre o risco que você apontou e acompanhe de perto. Se o risco aparecer, avise cedo e já com uma proposta na mão. O “eu avisei” só piora a situação para todo mundo, inclusive para você.


Quer entender como a hierarquia afeta a sua voz na liderança? Faça a autoavaliação do RPE antes da próxima reunião com a diretoria.

Se o seu desafio é ganhar espaço e firmeza diante da diretoria, conheça a Assessoria Método Presença Executiva.

Fontes

  1. Edmondson, A. Psychological safety and learning behavior in work teams. Administrative Science Quarterly, 1999.
  2. Google re:Work. Guia do Projeto Aristóteles sobre a eficácia das equipes, 2015.
  3. Amazon. Princípios de liderança: “Have backbone; disagree and commit”.

Seu próximo nível não precisa custar sua saúde emocional.

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