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Esgotamento profissional em líderes: sinais de alerta e o que fazer

Por Fernanda Daniel, psicóloga (CRP 06/100698)02 de novembro de 20266 min de leitura

Esgotamento profissional em líderes: sinais de alerta e o que fazer

Esgotamento profissional, também chamado de síndrome de burnout, é uma síndrome resultante do estresse crônico no trabalho que não foi administrado com sucesso. A Organização Mundial da Saúde descreve três sinais: exaustão, distanciamento ou cinismo em relação ao trabalho e queda da eficácia profissional. Só um profissional de saúde pode avaliar o seu caso, então, se você se reconhece aqui, procure ajuda cedo.

“Eu só preciso de umas férias.” Já perdi a conta de quantos líderes me disseram isso. Às vezes é verdade. Mas há casos em que o cansaço volta já na primeira segunda-feira depois do descanso, as reuniões que antes animavam começam a irritar e quase tudo vira “tanto faz”. Quando é assim, eu peço que a pessoa não espere as próximas férias para cuidar disso.

Os 3 sinais descritos pela OMS

A OMS inclui o burnout na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como um fenômeno ligado ao trabalho. Na tabela, mostro como cada sinal pode aparecer no dia a dia de quem lidera. É uma referência para você se observar, e não um diagnóstico.

SinalComo pode aparecer em quem lidera
ExaustãoAcordar cansado, fim de semana que não recupera, energia que acaba no meio da tarde
Distanciamento ou cinismoIronia com a empresa, irritação com o time, sensação de que nada faz diferença
Queda da eficáciaDecisões adiadas, erros incomuns, sensação de não dar mais conta do que antes era simples

Por que o esgotamento atinge tanto quem lidera?

A psicóloga Christina Maslach, da Universidade da Califórnia em Berkeley, estuda o burnout desde os anos 1970. Com Michael Leiter, ela descreveu seis áreas do trabalho em que um desencontro entre a pessoa e o ambiente alimenta o esgotamento. São a carga de trabalho, o controle, o reconhecimento, as relações, a justiça e os valores.

Quando olho para essas seis áreas com os líderes que acompanho, o desencontro quase nunca aparece em uma só. A carga cresce, o controle sobre as decisões é menor do que parece de fora, e o reconhecimento só chega quando algo dá errado. Sobra pouca gente com quem falar abertamente, porque o time não é o lugar para isso e o chefe, muitas vezes, também não. Os gerentes também aparecem mal nas pesquisas de engajamento: segundo o Gallup, o índice deles no mundo caiu de 27% para 22% em 2025.

Esgotamento não é falta de força

Os executivos que eu vi chegarem ao esgotamento, ainda no tempo de RH, estavam entre os mais comprometidos que conheci. O que tinham em comum era ter passado tempo demais sem pedir ajuda, tentando resolver no braço um problema que não era só deles.

A pesquisa de Maslach vai na mesma direção: o burnout nasce da relação entre a pessoa e o trabalho, e não só da pessoa. Por isso, pedir a alguém esgotado que “seja mais resiliente” coloca nas costas dele uma carga que também é da empresa. No Brasil, desde 2025, a NR-1 exige que as empresas incluam os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais. Escrevi sobre o que a resiliência é, e sobre o que ela não resolve, em resiliência no trabalho.

O que fazer se você se reconhece nesses sinais

  1. Procure um profissional de saúde. Um médico ou um psicólogo pode avaliar o seu caso, e quanto antes, melhor.
  2. Conte para alguém de confiança. Pode ser alguém da família, um amigo ou um par de outra empresa, desde que seja uma pessoa com quem você não precise parecer forte.
  3. Reduza a carga que for possível. Cansado, tudo parece inegociável. Vale testar essa impressão numa conversa com o seu chefe sobre prioridades e prazos, e eu mostro como fazer isso em como estabelecer limites no trabalho.
  4. Proteja o sono e a recuperação. Algumas ideias práticas estão em como desconectar do trabalho.
  5. Se o afastamento for indicado, siga a orientação. A decisão é médica, e o time consegue seguir sem você por um tempo, mesmo que a culpa diga o contrário.

Se o sofrimento estiver intenso agora, não espere a consulta: ligue para o CVV no 188, que atende de graça 24 horas por dia, ou, em emergência, para o SAMU no 192.

Como o líder pode ajudar a prevenir no time

As mesmas seis áreas de Maslach servem de roteiro para cuidar do time.

ÁreaO que você pode fazer como líder
Carga de trabalhoRever a distribuição do trabalho e as prioridades com frequência
ControleDar autonomia sobre o como, depois de combinar o quê
ReconhecimentoReconhecer o esforço, e não só o resultado
RelaçõesCriar espaço para o time se apoiar
JustiçaSer transparente nos critérios de avaliação e promoção
ValoresExplicar o porquê das decisões

Se alguém do time mostra sinais há semanas, chame para uma conversa em particular, ouça sem julgar e mostre os caminhos de apoio que a empresa oferece, sem tentar dar nome ao que a pessoa tem. Reuni outros hábitos que protegem a energia de quem lidera no guia como ser um bom líder.

Como olhar para a sua energia como líder?

Quando criei o RPE, Radar de Performance Emocional Executiva, quis que a energia de quem lidera tivesse lugar próprio. Duas das dez dimensões da autoavaliação tratam disso, “Exaustão e energia” e “Recuperação e desconexão”. Responder leva cerca de 10 minutos. O RPE não faz diagnóstico de burnout e não toma o lugar de uma consulta. Serve para você enxergar onde a sua energia está faltando antes de decidir o próximo passo.

Perguntas frequentes

Esgotamento profissional e burnout são a mesma coisa?

Sim. “Síndrome do esgotamento profissional” é o nome usado em português para o que a OMS chama de burnout.

Quais são os primeiros sinais de esgotamento?

Cansaço que não passa com descanso, irritação ou indiferença crescentes com o trabalho e a sensação de render menos do que antes. Se esses sinais duram semanas, procure um profissional de saúde.

Esgotamento profissional pode levar a afastamento?

Pode, quando um profissional de saúde avalia que é necessário. A decisão é médica e, em afastamentos longos, passa pela perícia do INSS.

Como ajudar alguém do time com sinais de esgotamento?

Converse em particular e ouça sem julgar, sem fazer diagnóstico. Depois, mostre os caminhos de apoio da empresa e reveja com a pessoa a carga e as prioridades.


Escrevi o e-book SOS Líder para os dias mais difíceis da liderança, com ferramentas práticas e contatos de apoio.

Quando tiver um respiro, abra o RPE e veja como estão a sua energia e a sua recuperação.

Fontes

  1. Organização Mundial da Saúde. CID-11, código QD85: burnout como fenômeno ocupacional.
  2. Maslach, C.; Leiter, M. P. The Truth About Burnout. Jossey-Bass, 1997.
  3. Maslach, C.; Schaufeli, W. B.; Leiter, M. P. Job burnout. Annual Review of Psychology, 2001.
  4. Gallup. State of the Global Workplace, edição 2026.
  5. Ministério do Trabalho e Emprego. NR-1, atualizada pela Portaria MTE nº 1.419/2024.

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